Introdução (ou algo que o valha)

Já vou logo avisando.
Não atualizo esse blog com a frequência que vocês merecem, mas quando resolvo escrever uma postagem eu pesquiso o tema com uma dedicação canina e redijo o texto com carinho maternal. Quanto a isso, dizem por aí que só existem 3 certezas na vida: A Morte, o Imposto de Renda e as informações encontradas neste blog (essa última certeza é fruto de um dos meus delírios de grandeza, hehehe).
Espero que encontrem a informação que procuram, que tirem as dúvidas, e que algum dia eu ganhe sozinho na mega sena.

terça-feira, 25 de julho de 2017

músculos do core

De alguns anos pra cá o termo “core” ganhou notoriedade, sendo utilizado não apenas por fisioterapeutas, mas também por profissionais de educação física, instrutores e praticantes de Pilates, Yoga, crossfit,  entre outros. Core é uma palavra em inglês que pode ser traduzida como núcleo, cerne, miolo, ou seja: “algo que está no centro” e é usada para definir os chamados “músculos do core”.  

O que é o core?
O chamado core é um grupo de músculos localizados no abdômen, responsáveis principalmente pela sustentação e estabilização da coluna lombar. Uma descrição mais específica é a de que o core representa uma unidade integrada composta de 29 pares de músculos que suportam o complexo quadril-pélvico-lombar. Podemos considerar como músculos principais deste complexo o diafragma, os músculos do assoalho pélvico (coccígeo, íliococcígeo, ísquiococcígeo, pubococcígeo, piriforme, puboretal e levantador do ânus), transverso do abdome, e os multífidos. 
Ao se contrair, os músculos do core formam uma unidade sinérgica comparável a um cilindro rígido, o qual estabiliza a coluna lombar protegendo-a de sobrecargas mecânicas. Sem esses músculos, a coluna vertebral se tornaria mecanicamente instável, sendo suscetível a lesões de forças de compressão tão pequenas quanto 90 N (uma carga muito inferior ao peso da parte superior do corpo). 

Porque o core é tão importante?
A ativação adequada dos músculos do core é essencial para proteger a coluna lombar de sobrecargas mecânicas. Muitos dos movimentos do nosso dia a dia tais como levantar de uma cadeira, carregar bolsas, inclinar o tronco para alcançar algum objeto, etc. exigem a ativação dos músculos do core. Se esses músculos não cumprem o seu papel protetor, a tendência é usarmos outros músculos para estabilizar a coluna lombar. Porém esses “outros músculos” apesar de ajudar, não conseguem substituir os músculos do core em seu papel estabilizador e o resultado é dor lombar, uma postura ruim e até equilíbrio comprometido.
Entretanto, a boa notícia é a de que é possível usar o retreinamento do core para reduzir a dor lombar, prevenir lesões adicionais e melhorar o desempenho de atletas.  

Um pouco de história para agregar cultura
A primeira descrição de algo parecido com o conceito de core foi feito por Henry e Florence Kendall, os quais divulgaram a idéia de uma "pelve neutra" em 1940 (no livro clássico – Músculos: provas e funções). Eles sugeriram inicialmente que os grupos musculares superficiais circundantes eram responsáveis pela manutenção do alinhamento e da "coluna vertebral lombar neutra". Os músculos a que se referiam eram os eretores espinhais, isquiotibiais, abdominais e os flexores do quadril. Seguindo disso, sugeriu-se que a inclinação pélvica (ântero e retroversão) era movimento pélvico desviando-se da posição neutra.

Em 1967 Belenkii descreveu como o sistema nervoso central estabiliza o corpo antes que um movimento voluntário aconteça, e em 1981, outro pesquisador chamado Bouisset confirmou esta observação por meio de Eletromiografia. Estas duas pesquisas foram importantíssimas para desvendar o mecanismo de ajustes posturais antecipatórios. O conceito de ajuste postural antecipatório é um componente-chave para entendermos a importância do fortalecimento do core. Para entender melhor, darei um exemplo:
Quando uma pessoa que está de pé faz um movimento rápido do braço, por exemplo: uma abdução, a postura vertical é perturbada por forças inerciais e reativas (o corpo tende a oscilar, pois tem seu equilíbrio estático pertubado). Para preservar o equilíbrio, a pessoa deve realizar ações corretivas, que são vistas como mudanças na atividade basal dos músculos posturais. Algumas dessas mudanças acontecem antes do movimento do braço (coisa de meros milissegundos). Antes do comando neural de abdução do braço iniciar efetivamente o movimento, um comando é enviado aos músculos posturais e do core para que eles “se preparem” e não deixem o corpo se desequilibrar. Esses ajustes são chamadas de ajustes antecipatórios.

Em 1989, Bergmark teorizou que descreveu o conceito de músculos do “sistema local” e do “sistema global”, uma divisão baseada na arquitetura muscular, disposição profunda ou superficial dos músculos no tronco e seu potencial para a produção de torque / força. No sistema local todos os músculos têm sua origem ou inserção nas vértebras e este sistema é usado para controlar a curvatura da coluna vertebral e proporcionar a estabilidade mecânica da coluna lombar (para isso, utilizam o mecanismo de ajuste antecipatório descrito acima). No sistema global, os músculos são mais superficiais (não segmentáveis) e ligam o tórax à pelve. Esses músculos produzem grande torque / força.

Um pouco mais tarde, em 1992, Panjabi desenvolveu um modelo teórico referente à estabilidade da coluna ( já fiz uma postagem sobre o trabalho de Panjabi. – Veja AQUI) este modelo teórico levou à criação de uma abordagem de exercícios direcionados ao tratamento de dores de coluna denominado “Estabilização Segmentar”. Isso levou à rápida progressão de idéias, conceitos e modelos que entraram na literatura ao longo das duas décadas, particularmente em relação ao tratamento da dor lombar (LBP).

Nos anos seguintes, o conceito de core foi se aprimorando e pesquisadores, como Paul Hodges, destacaram a importância e a contribuição do músculo Transverso do Abdomem para este mecanismo.

Toda esta base teórica brevemente citada acima é fundamental para justificar o papel dos músculos do core para a estabilidade da coluna lombar e consequentemente validar o uso dos exercícios orientados para a ativação, recrutamento e fortalecimento destes músculos.



REFERÊNCIAS:

  • KENDALL, F.P; MCCREARY, E.K; PROVANCE, P.G. Músculos: provas e funções. 4 ed. São Paulo: Manole, 1995.
  • Santos, J. P. M. dos; Freitas, G. F. P.  Métodos de treinamento da estabilização central. Semina: Ciências Biológicas da Saúde , Londrina, v. 31, n. 1, p. 93-101 jan./jun. 2010
  • Franc¸a FR et al. Segmental stabilization and muscular strengthening in chronic low back pain - a comparative study. CLINICS 2010;65(10):1013-1017
  • Marés G, de Oliveira KB, Piazza MC, Preis C, Bertassoni L Neto. A importância da estabilização central no método Pilates: uma revisão sistemática. Fisioter Mov. 2012 abr/jun;25(2):445-51
  • Hodges PW, Richardson CA. Altered trunk muscle recruitment in people with low back pain with upper limb movement at Different speeds. Arch Phys Med Rehabil. 1999 Sep;80(9):1005-12
  • Belenkii VY, Gurfinkel VS, Paltsev YI. Elements of control of voluntary movements. Biofizika 1967;12(1):135–41.
  • Bergmark A. Stability of the lumbar spine. A study in mechanical engineering. Acta Orthop Scand Suppl 1989;230:1–54.
  • Bouisset S, Zattara M. A sequence of postural movements precedes voluntary movement. Neurosci Lett 1981;22(3):263–70.

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